A cena cinematográfica piauiense atual parece estar presa num molde engessado e propositalmente produzido para ser isento de análise construtiva, proposta de inovação e crítica, igual a cena cultural e vida noturna da cidade já destrinchada aqui antes. O Piauí, apesar da alimentação financeira de editais, do fato de não estar mais tão isolado do resto do país de nenhuma maneira, parece não querer sair da mesma rota criativa, e isso se reflete da maneira mais exemplar com o cinema contemporâneo daqui.
Nos anos 70, em plena ditadura militar, o tão referenciado Torquato Neto gravou o filme “O Terror da Vermelha” apenas com uma Super8 e uma ideia. O filme é uma produção no maior estilo das obras da Boca do Lixo, só que bem mais amador, e retrata um serial killer vagando pela cidade em busca das suas próximas vítimas. Às vezes, entrecortado por cenas que parecem ter sido feitas para mostrar e registrar no tempo o cenário urbano daquela Teresina ainda isolada, onde quase ninguém tinha acesso a uma câmera.
Cortamos para 2007, simplesmente três décadas depois, onde o finado cineasta piauiense Alan Sampaio grava um curta de 20 minutos sobre um rapaz do condomínio João Emílio Falcão que não consegue uma câmera profissional emprestada para gravar um filme. Ele até encontra, mas vemos a realização da sua ideia ser impedida pela falta de apoio e compreensão das pessoas que o cerca. E é um curta de baixo orçamento, mas que consegue ter diversas camadas de metalinguagem e um argumento, a meu ver, interessantíssimo.
No mesmo ano, surge por iniciativa do historiador Aristides Oliveira o Coletivo Diagonal, que traz mostras de cinema pioneiras na capital e busca fomentar o surgimento de uma cena cell-video na cidade (filmes feitos com celulares e mínimos recursos), talvez até como uma homenagem ao Alan, e sua obra sobre um rapaz que tanto queria uma câmera que preste, embora talvez nem precisasse para ser capaz de consumar suas ideias. O coletivo durou não mais que cinco anos, mas creio que conseguiu transmitir sua mensagem a quem queira ouvi-la.
Cortamos, de novo, para 2026, duas décadas depois, e temos um par de coletivos e núcleos de cinema na capital, agora com financiamento e suficientes recursos técnicos, que parecem se vender como a derradeira consumação do cinema no estado. Finalmente o Piauí aparenta estar fazendo cinema. Apenas aparenta mesmo, porque o que estão produzindo parece sempre seguir a exploração das mesmas temáticas e abordagens técnicas.
São filmes, esmagadoramente documentais, sobre o aparente fetiche que esses produtores parecem ter pelo conceito da roça mágica brasileira. Deve ser estritamente proibido nas diretrizes desses coletivos produzir algo que não seja uma retratação superficial de folclore e patrimônio. Precisam adentrar os vilarejos e casas mais profundos do nosso Piauí e mostrar a realidade dura dessas pessoas sofredoras, desses “nobres interioranos” que, além de tudo, nem parecem estar sendo verdadeiramente representadas ou tendo sua vida interna explorada. É sempre sobre o encontro, tão piedoso, do coletivo de cinema com essas pessoas, e não sobre essas pessoas em si.
Cinema (e outras produções) que retratam costumes ancestrais e comunidades isoladas não precisam ser sempre um documentário onde você provavelmente não deu mais do que uma água para os retratados beberem antes de colocar eles para falarem sobre suas vidas difíceis, às vezes nem captando o áudio direito. E se o objetivo é trazer à tona alguma problemática ou curiosidade que precisa ser vista e ouvida, ao menos deveriam fazer o favor de disponibilizar a obra em algum lugar – ao invés de encerrar a sete chaves apenas a quem se dispor a ir às exibições. Pode até ser no Vimeo, se o YouTube não for uma plataforma profissional o suficiente. Mas parece não haver interesse nem em dar a cara a tapa e mostrar o que foi produzido, talvez por uma consciência da qualidade do que foi feito.
Há tanto que pode ser explorado sobre esse Brasil ignorado, em diversos meios além da documentação sempre tão séria, sem nenhuma liberdade criativa, roteirística, editorial ou até um remoto senso de humor – senso de humor que até as pessoas retratadas tem pela sua própria vida e seus costumes, apesar das suas dores. Eu ouso afirmar que isso vem até de baixo repertório vindo de quem participa desses núcleos.
É triste, pois parece haver até mais adolescentes por aí pirateando e se encantando com um Tropical Malady da vida do que a galera que se vende como os expoentes do costumbrismo rural mágico piauiense. Não exploram diálogo criativo, não exploram camadas e camadas de roteiro, quase não exploram ficção, não exploram nem a dualidade da personalidade dos retratados, nem que acabe sendo a tentativa mais baixo orçamento possível. Até alunos de ensino médio o fazem nos seus trabalhos amadores de curta-metragem feitos para ganhar nota e passar em Literatura. Mas o diretor ou produtor de cinema com síndrome de assistente social não pode jamais retratar algo além da dureza das coisas e correr o risco de ser visto como menos perfeito e isento.
Parece ser a outra face da moeda do conservadorismo intelectual brasileiro que vende que o Brasil profundo e verdadeiro é o seu Zé e a dona Maria, católicos fervorosos que moram ao lado de um açude, e que o conformismo e abaixar a cabeça para autoridade religiosa – extensão estrutural da política – é o que faz um brasileiro do interior e seus costumes mais nobres que os demais, numa tentativa utilitarista de se aproveitar da existência dessa galera para seus fins políticos. Quem deveria mostrar, sem condescendência e filtro, a diversidade dessas pessoas, das suas práticas e do ambiente ao redor delas, que vai além da pura humildade e religiosidade, e destruir essa mentalidade neoarmorial está fazendo o mesmo desserviço dessa galera desonesta da direita intelectual. E são pessoas em espectros políticos totalmente opostos com a mesma atitude retratada na esquete do Hermes e Renato sobre o Charlinho.
Chega a parecer ofensivo para os autores do passado que fizeram tudo para ter orçamento, para ter ao menos uma câmera. E quem tem hoje parece querer se exibir, fazendo showcase vazio desse material técnico que já foi tão cobiçado por quem tinha ideias, repertório e algum talento nesse estado. Arte exige um pingo de coragem e tentativa, e botar uma câmera na frente de alguém que nunca teve sua vida ou seu entorno retratado de um jeito mais diferente do que um VT do governo estadual e acabar fazendo só mais do mesmo para elas, só que com fotografia mais bonitinha, é tudo menos corajoso.