No último texto, comentei um pouco sobre como a cena supostamente alternativa de Teresina está explorando os mesmos campos facilmente rentáveis, sob o pretexto de estarem resgatando a “brasilidade” perdida pela colonização cultural que nos foi imposta. Resgatar a música e a arte brasileira é importante, mas por que está sendo executada da maneira mais insossa e limitada possível nessa cidade? Por que se resume à remix house ruim de música da Gal Costa e achar que não querer escutar os mesmos artistas em todo lugar é ser colonizado? E digo isso como alguém que gosta das músicas de muitos deles.
As produções culturais da MPB fusionada são extremamente diversas, e nem precisa se fechar apenas ao Brasil – tem produção de outros países do sul global que dialogam muito com a nossa. A gente tem de tudo mas parece que isso foi rejeitado em prol do monopólio avassalador da estética cervejinha, samba de rua e solzin. Para piorar, até a cena eletrônica parece estar se fechando a um marasmo de techno e house que nem sequer parece explorar a diversidade de manifestação desses mesmos estilos. Além disso, Brasil tem cena drum’n’bass, tem dub, tem downtempo – diabos, até sua própria versão paradoxal de “eurodance” tem -, entre diversas outras. E nem isso é remotamente aproveitado por quem se vende como a oposição à ditadura do ombrim.
Estamos falando de gestores e produtores que têm meios, inclusive financeiros, que têm imóveis localizados nos melhores pontos possíveis para o encontro do eixo Teresina-Timon, e não sabem usar isso para transformar Teresina em polo de diversidade. Não se propõem nem a botar um projetor barato e exibir um filme brasileiro gravado do Canal Brasil depois dos shows para, no mínimo, poder dizer que estão resgatando e preservando algo que não seja uma caricatura dançante de Brasil.
E vai você falar qualquer ai sobre isso, porque parece ser iniciativas que propositalmente se posicionam como imune à crítica pública. É a brasilidade, meu! Como você pode ser contra o Brasil pandeiro, o brasil chão batido? É um ordenhamento de cultura brasileira que na cabeça dos consumidores acaba produzindo uma blindagem contra qualquer produção nacional que seja ou já tenha sido remotamente fora do eixo de verdade. Isso é a última coisa que Teresina necessita, em plenos anos 2020: mais mentalidade limitada, travestida de neotropicalismo.
E, veja, não estou afirmando que deveria parar de tocar Marina Sena nos rolês e passar a mostrar apenas vídeo-arte experimental ao som de Arrigo Barnabé para os teresinenses, com fita adesiva forçando a abertura de seus olhos (apesar de que isso seria uma cena engraçada). Nem tudo é oito ou oitenta, existe espaço pra diversificação, pra mistura de mídias, pra uma zona cinza cultural que só vai beneficiar e posicionar nossa cidade melhor no cenário nacional, por não ter apenas o mesmo. Mas a mentalidade limítrofe coletiva dessa cidade parece achar que isso é simplesmente impensável.
Há um medo avassalador de tentar, de variar, de se arriscar, nem que seja um pouco – e nem é como se fossem ficar pobres e parar na rua porque uma noite de algo diferente e fora do foco normal vai fazer eles perder alguns centavos. Se quiser manter o foco dos seus espaços, ainda assim haverá afluência e acesso aos meios para diversificar o complexo cultural que já existe com algo que alimente outro nicho e chame atenção de um público diferente, e com público diferente não quero dizer a galera que acha esses ambientes super insalubres por ser no meio da rua, ou ter coisa riscada na parede, ou por terem que ir no balcão pegar a cerveja que pediram. E até o rico provinciano da zona leste que decide ir a esses espaços para conhecer “a festa estranha com gente esquisita” parece explorar e se arriscar mais do que os próprios gestores e curadores culturais desses lugares.