Recebo alguns comentários e mensagens que parecem afirmar que em Teresina, para o jovem alternativo das novas gerações, não há mais nada para se fazer à noite e que o cenário cultural parece ter estancado em um ciclo de homogeneidade, ou que a cidade já foi mais viva antes. Bem, afirmar que não há nada para se fazer mais não é verdade: numa escaneada qualquer, é possível ver que existem sim diversas baladas, centros culturais, bares a mil; mas pretendo fazer uma ressalva e comentar que essa observação não é de todo falsa e exemplificar isso com uma pequena análise do mercado cultural atual e os hábitos virtuais de consumo da geração Z e como eles impactam a produção de lazeres underground na cidade.
Embora muito do conteúdo do Piauiwave seja de resgate do passado cultural da Teresina dos anos 2000 e até 2010, a proposta da página não é apenas um saudosismo preso no vácuo: é necessário olhar para o passado para moldar o presente e pensar o futuro. Olhando para o que já foi feito na cidade em épocas de bem menor capacidade de divulgação, podemos trabalhar em cima disso e pensar no que a cidade precisa agora. Alguns seguidores e amigos que acompanham a página afirmaram fascínio em terem descoberto essa cena alternativa do passado, e que, para eles, parecia ter um grau maior de autenticidade.
Muitos desses movimentos da cena passada foram pioneiros e se jogaram no escuro para explorar e trazer algo de novo para a capital, muitas vezes sem promessa de retorno imediata, e não duraram para sempre porque tinham, acima do baixo alcance ou pouco investimento, consciência da necessidade de renovação. A Teresina atual, por outro lado, parece ter se conformado com seu estado de não-polo, ou polo de nada. Um lugar feito apenas para morar, existir e lucrar minimamente, e não como um ponto e local de exploração de novos mercados e possibilidades. Lazer alternativo tem que existir, é claro, e há – mas por que parece não ter a mesma veia dos investimentos passados?
Dá para culpar parcialmente os novos hábitos digitais da juventude, que mudaram bastante com o crescimento de plataformas como o TikTok, por bem ou por mal. É uma geração que tem, a seu dispor, acesso a todo tipo de produção, além de inúmeros criadores de conteúdo que divulgam e facilitam o conhecimento e acesso à obras mais nichadas como nunca antes foi feito – uma parcela de jovens Z hoje consome vorazmente coisas que só eram acessíveis para os que tiveram a sorte de ter acesso cedo à internet e cavucavam e investigavam a fundo nos anos 2000 e até 2010. E esse fenômeno da geração Z consumindo com mais acessibilidade coisas que antes eram reservadas para certos grupos é algo fascinante.
Há outra parcela dessa geração que, em contrapartida, apesar da quantidade absurda de conteúdo dado de bandeja, parece infelizmente ter pouco interesse em explorar algo além das mais tocadas do TikTok, e possuem um foco mais forte em expressar sua identidade por meio de visual e packs de estética. É de se esperar que os produtores da cena alternativa da cidade, pelo menos os mais conscientes do que está sendo feito nas outras capitais do Brasil e mundo afora, explorassem as possibilidades da primeira parcela descrita anteriormente, buscando expandir e unir os membros dela, ao invés de focar no retorno imediato do segundo grupo aqui descrito – que apesar disso é também capaz de sair da mesmice das músicas mais usadas em reels do Instagram, apenas ao ter a experiência orgânica de escutar algo novo sendo tocado em uma baladinha. Existe essa flexibilidade. E vemos muito desse interesse pelo analógico e o encontro orgânico com mídias nessa geração atual.
Todo esse fenômeno revela, por desgraça, um certo “gatekeeping” na disseminação de cultura na cidade. Quem tem acesso aos meios, aos editais, ao financiamento e às manifestações culturais sudestinas e até das outras capitais nordestinas parece querer, ainda que talvez de maneira quase inconsciente, guardar o conhecimento adquirido mais organicamente disso apenas para si, explorando então os mesmos nichos de sempre em Teresina que são mais facilmente rentáveis ou seus projetos de vaidade: a busca piedosa da piauiensidade profunda que, por mais sociologicamente interessante possa ser em teoria, acaba sempre falhando na execução; ou a eterna exploração atual da MPB fusionada com outros estilos populares, causando essa homogeneidade até nas pessoas que frequentam os bares e espaços culturais teresinenses; ou a eletrônica que parece não ir além de um techno de baixo compromisso.
Basta uma visita para Recife ou Salvador ou, se quiser ir um pouco mais longe, Belo Horizonte para alguém ver que a cena alternativa de qualquer campo desses lugares, além de extremamente diversa, se renovou constantemente ao longo do tempo e hoje está em completo florescimento, tendo, além disso, desenvolvido uma relação simbiótica com o público mais jovem – se aceitou que a juventude atual, inevitavelmente, tem um consumo de mídias ou mais voraz e expansivo, ou mais passivo e inerte, e decidiram explorar o primeiro lado e não o segundo. Os nichos que são ordenhados à exaustão em Teresina existem nessas cidades também – existem para quem quer consumi-los, mas não são os únicos. E não ser os únicos, mas apenas alguns em várias opções, é o ponto chave aqui.
Até nas capitais nordestinas mais próximas, especialmente Fortaleza, é possível notar nos últimos anos um avanço considerável na produção cultural, tanto na música quanto no cinema – dois campos que comento com mais foco por me serem queridos – mas a chamada “Terehell” parece ter ido à contrapartida desse desenvolvimento, novamente, sendo reservada ao status de polo infernal de nada. Isso pareceu ainda ter se exacerbado na pós-pandemia, com o encerramento e dissolução de muitos empreendimentos e manifestações culturais dos anos 2010 e seu suposto renascer com desamparo aprendido.
É entristecedor ver o capital cultural da cidade, que por mais interiorana que seja, a única do nordeste longe do mar, se conformar e até fomentar esse ciclo vicioso de que não, não podemos inovar nem explorar coisas novas. Deixemos à juventude de Teresina seus setlists de praxe, suas temáticas de produção cinematográfica exaustivamente exploradas já. E vamos para outro estado do Brasil ver, viver e fazer ali o que queremos produzir de verdade. É uma bola de neve descendo ladeira abaixo, que incentiva até a nova juventude criativa a ir embora do estado, a nossa “fuga de cérebros” artística, cérebros estes que poderiam estar vivendo essa consumação na sua terra natal e até trazendo o Piauí para o cenário nacional.