Boa parte dos posts da página, principalmente de movimentos artísticos e projetos culturais, vêm de blogs aleatórios de pessoas piauienses que eu encontro internet afora, além de plataformas de fotolog como o Flickr. Clico em um, depois vou no perfil de alguém que comenta, clico em outro, depois em outro e assim vou encontrando essa rede emaranhada de bloggers escondida e abandonada na web.
Numa dessas incursões, esbarrei num site chamado Blogueiros do Piauí, que agregou em 2008 usuários do site que fossem provenientes do estado. Ainda nem cheguei a explorar todos os perfis ali listados (muitos deles estão redirecionando para spam ou estão com o conteúdo perdido), mas de cara já posso fazer uma observação sobre a natureza desses espaços.
Estamos falando de 2008. A internet estava ainda começando timidamente a se popularizar entre a classe média baixa brasileira, ainda mais a piauiense. Muita gente já tinha Orkut e Messenger, mas interesse por criar um blog era mais reservado a estratos específicos da sociedade do estado: alunos universitários (especialmente os de humanas), escritores, cronistas, jovens entusiastas de algum tema (animes, filmes, música, etc), organizadores de eventos, membros de associações, entre outros.
O blog é, antes de tudo, pessoal, íntimo e ligeiramente “artesanal”. O que o diferencia de, por exemplo, um perfil de alguém no Instagram, é que é necessário alguém clicar no seu site e ter um interesse particular pelo seu conteúdo – muitas vezes de consumo mais difícil – para que ele tenha certo alcance. E nem sequer faz sentido falar em “alcance” porque não havia, na maior parte do tempo, uma esperança de que esse conteúdo chegasse a muitas pessoas. Estamos falando de espaços virtuais pessoais e pequenos, geralmente desenvolvidos para o entretenimento de amigos ou uma rede pequena de pessoas.
O blog não foi feito para ser visualizado no celular, enquanto você vai para a escola, faculdade ou trabalho. O seu habitat natural é o notebook ou computador de mesa doméstico. Telas grandes exaurem nossos olhos, exigindo tempos regulares de descanso. Estar sentado em uma mesa também cansa, vez ou outra você terá que se levantar para fazer outra coisa. Essa natureza imóvel do blog e da internet no passado no geral permitia um consumo mais atento e lento do seu conteúdo. Assim funcionava a navegação e socialização virtual nos anos 2000, permitindo momentos de folga entre a absorção de cada informação. Sobre a internet já ter sido um "lugar" estático na sua casa, recomendo este vídeo-ensaio em inglês da Sarah Davis Baker no YouTube:
No contexto do Blogspot, por mais que a plataforma hoje pertença ao Google, ninguém irá ter conteúdos alheios à sua rede empurrados no seu feed num buraco negro sem fim de informação. No blog tradicional, não existe algoritmo como entendemos hoje – excetuando-se plataformas especiais como o Tumblr, que funcionam por meio de feed infinito e ”reblog”. Nesse contexto, reflexo da cultura virtual dos 90 e 2000, a intenção, esforço ativo e voluntariedade de cada usuário fala mais alto.
Muito me surpreende que plataformas como Blogspot ainda existam (não se sabe até quando). Pessoalmente, e queria poder falar isso sem soar como uma velha saudosista gritando para o céu, acredito que deveria haver um resgate do fenômeno do blogging enquanto manifestação virtual da identidade dos jovens que hoje estão abocanhados pelas garras da mesmice das plataformas big tech. Na minha vida online, já esbarrei em diversos exemplos de perfis muito bem elaborados (aqui mesmo no neocities, que resgata a cultura dos sites verdadeiramente “artesanais” da web 1.0 dos anos 90), com valor estético excelente e muito mais atrativo que o mais personalizados dos instagrams.
É importante mencionar que o Blogspot funcionou como uma ferramente acessível para criação de um espaço virtual próprio e personalizado, sendo multifuncional por natureza. Foi amplamente usado por não exigir conhecimento de programação. O uso desse tipo de plataforma estilo CMS para criação de sites pessoais é perfeitamente válido, como qualquer esforço para sair do círculo vicioso dos feeds modernos, mas ainda mais louvável é o incentivo à coisa mais do-it-yourself que um jovem pode fazer: colocar a mão na massa e aprender HTML para criar o site do jeito que bem quiser.
Analisando alguns blogs do circuito Blogueiros do Piauí, é possível encontrar certos padrões em alguns. Uma juventude piauiense dois mil anista com inclinação artística e orientada à expressão escrita: poetas amadores, escritores em formação, pequenos cronistas do dia a dia, muitos deles do círculo da Revista Trimera e do movimento Academia Onírica. Independente da percepção de cada um da qualidade dos textos e poemas, não se pode negar que havia certa experimentação cultural ali. Hoje, acredito que essa veia ainda exista na juventude teresinense, porém está diluída em outros meios e manifestações mais próprios de nosso tempo: a arte digital, a “criação de conteúdo” – por falta de uma maneira melhor de descrever -, o empreendedorismo, o humor digital, o arquivismo, o ativismo, entre outros.
Os blogs piauienses que encontrei não são esteticamente impressionantes, muitas vezes tem algo de naïve na composição dos elementos, fruto de ajustes feitos às pressas no editor do Blogspot. Não impactam com o olhar, pelo contrário, podem até repelir e afastar os olhos dos textos e imagens que, com uma roupagem melhor, poderiam até atrair mais visitantes. Isso é natural de uma época onde as tendências do design eram completamente diferentes e menos impecáveis. Poucas pessoas sabiam usar o Photoshop em 2008.
No Flickr, que opera em um esquema parecido porém com fotos, o registro do cotidiano, cenários urbanos e costumes da juventude millenial impera. Encontrei uma infinitude de material teresinense dos anos 2000 e comecinho dos 2010: festinhas, shows, associações culturais, ou apenas cenas do dia a dia na capital e resto do Piauí. A partir de 2012, blog e fotologs pareceram definhar – não coincidentemente, isso aconteceu junto com a popularização do Facebook e do Instagram. Novamente, o Flickr é outro site que não se sabe até quando estará disponível, e aqui entramos em um tópico um pouquinho triste para mim.
Já na introdução do BDP temos algo decepcionante: um link quebrado e sem destino direcionando a uma comunidade do finado Orkut. A quantidade exorbitante de links quebrados, sites e plataformas perdidos para sempre no tempo é de desanimar qualquer arquivista digital. Considero a morte do Fotolog, Flogão e Orkut uma das minhas Bibliotecas da Alexandria pessoais. Imagine só a quantidade de registros e pérolas piauienses perdidas para sempre na história com a morte desses sites. Infelizmente, isso também acontecerá com tudo que usamos hoje em dia. Por isso acredito na importância de falar sobre as “coisas sem importância” que o Piauiwave busca resgatar.
Encontrei nesse amontoado de sites um blog e e-zine chamado Batumaré Contra a Maré, que foi talvez uns dos primeiros a postar álbuns raros de bandas piauienses. Para exemplificar a preciosidade desse tipo de conteúdo, ali é talvez o único lugar onde se pode achar um arquivo zipado do álbum noventista Lonely Noise, da banda piauiense Ravena – nossa primeira produção musical que se pode categorizar como “indie rock”.
Esse é um dos exemplos de como, em nosso estado que foi tão pouco arquivado, os registros digitais, até de coisas relativamente recentes, são de extrema relevância para o entender e construção da nossa cultura pop, história e identidade. É curioso que até no mais sertanejo dos estados brasileiros, são nos blogs e e-zines que o nosso estado é retratado e salvaguardado da maneira mais intensamente peculiar.